Não sei se sabes. Não estou certa de que saibas de que cor ficou a casa no dia em que foste embora. De que cor ficaram as ruas e as copas das árvores. Não, não sei se sabes, se poderás imaginar o vazio do mundo e do tempo depois de teres partido.
Não houve tempo para despedidas e às vezes fico agradecida por isso. Não havia nada que te pudesse dizer em forma de despedida. Não haveria tempo suficiente, mesmo que tivesse havido algum.
As recordações, os sorrisos que fui guardando nas gavetas da memória. O teu sorriso e o cheiro das tuas mãos ásperas. Limão.
Às vezes gostava de me lembrar de mais coisas, de ser capaz de precisar os momentos. Outras vezes… outras vezes respiro o mais fundo que consigo e esforço-me por te afastar dos meus pensamentos.
Foi num tempo que já lá vai há muito tempo. Foi num instante que nunca vou conseguir substituir por mais nenhum sorriso. Não daqueles, não dos nossos.
Um instante cheio de lágrimas, esmurradelas, birras para comer, sorrisos…bolos de erva-doce, pastéis de bacalhau…
Foi um instante de tanques de roupa de alguidares de couves, de erva apanhada, de canteiros de flores brancas que não me lembra o nome…
Outras vezes… outras vezes respiro o mais fundo que consigo e esforço-me por te afastar dos meus pensamentos.
Não consigo contar-nos. Não consigo passar para nenhum papel a nossa história. Porque é nossa. Porque continuo a pensar nas vezes que olhei para a janela e que pus um prato a mais na mesa.
Limão. Erva para os coelhos, sacos de serrim… Salsa. Flores roxas a caírem em cima da nossa cabeça e nas brechas do cimento do pátio… muros com musgo verde e batas de trazer por casa…
Roupa para passar, sacos plásticos dobrados a ouvir o terço e frases de jogos que nunca chegámos a ganhar…
Listas de compras, casas de botões, alinhavos, pastéis de carne…
Rectângulos de giz e réguas de madeira, termos de café e sandes de queijo e marmelada…limão…
Tantos bocados de ti espalhados na vida de tanta gente. Entranhados em mim e nas paredes da minha vida. Tantas vezes tu. Tão tu. Tanto.
Outras vezes… outras vezes respiro o mais fundo que consigo e esforço-me por te afastar dos meus pensamentos.
Não, não sei se sabes, se poderás imaginar o vazio do mundo depois de ti…
Carne assada, xixi, cama.
Não sei se algum dia vais perceber a falta que me fazes.
Mas fica descansada… tive-te sempre por perto, mas o vazio era tão grande que arranjei maneira de te trazer outra vez para ao pé de mim…
Sim, carne assada, xixi e cama…
E estás quase aqui outra vez… onde afinal nunca deixaste de estar.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
sábado, novembro 11, 2006
não sei se sou capaz
Às vezes dou por mim a pensar se serei capaz. Se alguma vez fui realmente capaz e , se foi o caso, se ainda serei hoje. Amanhã de manhã ou na próxima quinta feira por volta do fim do dia. Não estou certa disso.
Prometo-te que vou tentar voltar a mim.
Prometo.
Prometo-te que vou tentar voltar a mim.
Prometo.
quinta-feira, agosto 03, 2006
Tu tantas vezes
já não é hoje ?
não é aquioje?
já foi ontem?
será amanhã?
já quandonde foi?
quandonde será?
eu queria um jàzinho que fosse aquijá
tuoje aquijá.
Alexandre O'Neill
quarta-feira, agosto 02, 2006
lugares sem fim
sábado, julho 29, 2006
Bricolage
De vez em quando dá-me para recordar. Ando com o passado atrás de mim. Não sei porque me entrego a este passatempo, a esta espécie de bricolage interior… recordo para não acordar. Talvez seja isso.
A memória é uma colagem, uma sobreposição de imagens. Uma brincadeira com um gosto por vezes duvidoso, que deixa sempre alguma coisa por desejar. Mas somos capazes de nos entregar a ela, de a deixar corroer-nos os pensamentos.
Deixamos gavetas entreabertas e, de vez em quando, em dias de nevoeiros interiores, damos por nós a sentar-nos no chão, pernas em posição de yoga, a rebuscar dentro de armários e cómodas antigas que nos habituaram a chamar passado.
Recordar é um jogo quase absurdo, um vício umas vezes dramático outras vezes patético, quase nunca saudável. Um passatempo para quem teima em não querer deixar o tempo passar. E o passado não é amigo. Parece, tantas vezes, companheiro, leal. Mas não é amigo. Os amigos andam de mão dada connosco mas deixam-nos seguir o nosso caminho. O passado não.
Não gosto destes dias em que maus tempos interiores me obrigam a sentar no chão e a rebuscar-me dentro de gavetas. Mas, de vez em quando, não estou certa se o presente me apetece.
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